Conto que garantiu o 2º lugar no 5º Prêmio Joinville de Expressão Literária
Sobretudo vejo o arquipélago ao afogar os pés na porta do quarto. Desacendo a claridade e coloco-me em postura de como quando avistei-as no mundo em primeira instância.Elevei as pálpebras e percebi: elas olhavam para as minhas – para as mãos, principalmente.
Ontem anoiteceram espantadas: ao adormecer, eu pequei a maior das dores de uma vida adulta cruelmente antecipada. Não havia feito minha prece como nas infâncias passadas.
Logo juntei as mãos, entrelacei os dedos e penumbrei os olhos com força; tanta de amassar os cílios. Nesse instante, meu inconsciente presenciou um estado de entrega total; dentro de uma ingênua meninice.
Os astros quase em plena decepção forçaram sorrisos de alívio.
Passado as horas, principiou o sol. Fez guardar, pois, as estrelas suas contidas confissões dessa quase desarmonia.
Despertei com a janela do quarto gritando em raios de luminosidade.
Fiz uma prece.
Aquela de uma inocência que implora saudade.
Tive o pressentimento de estar num gramado extenso com árvores de todos os tipos e balas de morango e abraços de comprazo. Pernas curtas e joelhos ralados, pés descalços ou sobre galhos traiçoeiros. E sonos embalados que meu avô me presenteava.
Abri os olhos e desentrelacei os dedos.
Mas a infância já havia passado.
2 Comentários
Dezembro 10, 2008 ás 6:43 pm
São raras as pessoas que tem o dom da palavra..e vc,certamente é uma delas!Voce flui,babe..Lindo texto.Tão suave e colorido qto as brincadeiras da meninice* de outrora!
=)
Dezembro 14, 2008 ás 1:06 pm
embora eu nao seje do seu mundo gostei do trabalho. uma pena que qualidade nao seja sinonimo de audiencia. um grande abraço.