Fazia quase sol, pontando chuva, que nós, joinvilenses, quase não estamos acostumados a ver. Eu caminhava sem pressa, com livro na mão voltando do almoço, como o costume, todos os dias. Naquele momento, imaginei que o tempo poderia estar melhor, e que, dentro de mim, poderia viver, pensar, agir de uma forma melhor. Sem muita demora, passei em frente de uma casa que vejo todos os dias. Quando olhei para lá, percebi que havia alguém sentado, tomando aquele quase solzinho do fim da manhã, comecinho da tarde: uma velhinha tão doce que me encantou. E eu, com aquele sentimento de “poderia estar melhor” dentro do peito, levantei a cabeça, meus olhos correram para os dela e não foi difícil de reparar em seu pescoço e rosto as marcas que o tempo trouxe sem poupá-la um centímetro sequer.
Eu, já com as cordas vocais prontas para lhe cumprimentar com um simples bom dia, me surpreendi com sua reação: antes que minha voz coresse garganta afora, ela abriu um sorriso imenso, sem ligar para minha opinião sobre seus dentes postiços ou seus olhos quase petrificados. Então, fez um gesto com os lábios que parecia mímica, de tão fraca que era a voz: bom dia! balançou o pescoço em tom de contentamento e me abriu outro sorriso, como se este fosse para confirmar que as palavras que me pronunciou foram de coração. Eu quase não pude conter: saiu de minha boa um sorriso meio tímido, respondi a ela com outro: bom dia! Não tinha como evitar: foi tão forte sua expressão que parecia sedenta pela primeira alma que pudesse passar na calçada de sua casa. Pareceu, também que seu ato de mostrar ainda força me deu um empurrão nas costas, não podendo evitar uma resposta no mínimo o mesmo tanto convincente. Me pegou, literalmente, de supetão pois não imaginava surpreender-me de tal forma. Levantei os olhos, continuei andando e ainda com os resquícios da surpresa, olhei para o chão, depois para o céu, ri pra mim mesma, sem ter respostas suficientemente lógicas aos resmungos daquele quase dia de sol. À partir de então, enxerguei nela a melhor estação da vida: a de sentir-se bem, saudável e confortável com ou sem sol ou chuva, e não demorou muito para eu sentir, como diz o ditado, que a luz do dia não está na cor do céu, mas nos olhos de quem o vê.
Novembro 27, 2008...5:26 pm
Das palavras de um olhar, das lições de uma vida
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1 Comentário
Novembro 29, 2008 ás 1:57 pm
Sutilezas que fazem diferença. Quase estive em Joinvile contigo,rsrs
beijos