Sem vãos

Hoje pude dentre todas as horas de fantasmagorícies em que liberei meu sopro de alívio da vida, encontrar-me novamente dentro de minha própria existência.

Porque o que suspira de mais importante em mim, minha raiz em forma de extensão que é sangue do meu sangue fez presente nesses dias mais recentes.

Habitou, também, durante alguns instantes desde minha nascença, passando pela chácara da minha vida, estradas, praias e apertos peito-a-peito que saíram verdadeiramente do coração, este que se torce à saudade que aperta.

De forma alguma, tenho como insignificante a maneira com que a família torna-se fonte de todas, todas as coisas. Pois, simplesmente, compõe uma coluna inteiramente sólida e maciça. De cimento emocional à prova da maior dor como a da parda de lascas de uma raiz: que sangra.  Mesmo que sejam poucas não se tornam indiferentes porque cada estreita lasca é única e mesmo que com o tempo a cicatriz refaça-a com manchas invisíveis, não há o que reconstitua uma lasca sem vida. Literalmente.

Porque família é raiz.

Sou uma das que toda vez ao ver desenrolar uma lasca para muito longe, sangra e seca doentia pela marca da saudade transformada em tristeza.

Em festa, fazemos o máximo para que possamos reconstituí-la, sem lasca em falta; mas  conquistamos nossa unidade física.

Apenas uma coisa cada uma de nós sabe: o que existe aqui não se dispersa. Somos lascas de uma geração irrevogável que pede tempo e dias na face do mundo. Estes nos faltam por motivos de doença. A cada uma que adoece ou de qualquer forma anula sua forma existencial, torna-nos incrivelmente mais fortes e uniformes. Porque somos lascas da mesma raiz. Somos cascos de um mesmo caule onde se desenvolve a cada instante. O que nos alimenta é a força que mesmo se conquistada através da lágrima, sempre é em prol dessa necessária união. E muita força.

Somos, em festa, a raiz completada pela ânsia da aproximação. Quando não há mais lugar para onde correr, apenas esticamo-nos para que aos poucos os vazios tornem-se menores.

Porque há vazios em que a dor pode adormecer. Porém, há dores em que os vãos tornam-se bem maiores por causa dos vazios. Justamente porque cada estreito nosso que falta, faz extrema falta.

Mas há sempre algo no que acreditar que poderá completar-nos. E desta vez, mesmo que com três lasquinhas em falta, somos novamente a raiz que transfere-se de um ano comum para o bissexto. Ano este a repor lascas caídas, secas, tortas ou necessitadas de vida.

Mesmo que quase mortas, que sejam partes de nós, lascas de uma raiz que adormece ao tentar esquecer que há poucas horas seremos com vãos, mas agora somos nós, lascas de uma mesma raiz.

 

Natal 2006.

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Carta ao meu amor

[Para o Silas]

 

 

Sabe querido, este não era para ser o tema de mais um escrito meu, mas como afirma o ditado “a boca diz o que o coração está cheio”, vou insistir em lembrar, mais uma vez, do que me dilata o coração. Eu pensei numa música, num acontecimento e em várias outras possibilidades que me fariam mais feliz; porém, dentre todas, comecei e terminei pensando em você.

Eu poderia, apenas, dizer que o amo, mas isso é mais do que nítido em mim. E não quero falar sobre o que todo o mundo já sabe: anseio que eu transpareça a existência da paixão avassaladora: em você, que é a projeção mais perfeita do amor meu um dia sonhado. E então, posso dizer que é o meu grande sonho realizado. Você tem dentro do coração as palavras que necessito para sentir o que o meu coração precisa ouvir e sentir.

Na verdade, bem verdade, eu repito que este não era para ser o tema de mais um escrito meu, mas como o ditado diz aquilo que eu já falei ali em cima, encho-me cada dia mais de você. Me completo e preencho cada vez mais do seu sentimento que me prende gradativamente. Mas prende por vontade minha, também, porque eu quero ser eternamente presa na liberdade do nosso amor. Quero ter em mim sempre a poesia perfeita nos lábios – ou nas mãos, que seja – para que você saiba e consiga entender o grande e poderoso vício que tenho por você.

O que importa é que eu te amo e isso basta.

Sabe querido, este não era para ser o tema de mais um escrito meu, mas é apenas isso que meus lábios são capazes de proferir.

 

Março, 2008 

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